Inteligente, engenhoso, instigante e sensacional. Assim é Ilha do Medo (Shutter Island no original), o mais novo filme do fora de série, Martin Scorsese. Misturando elementos dos melhores thrillers, suspenses e noir, o diretor constrói uma história que prende não só por sua narrativa envolvente, mas sobretudo pelas ótimas viradas na trama, e que longe de serem gratuitas, garantem ao fim da projeção uma conclusão óbvia: Ilha do Medo, é fácilmente (pelo menos por enquanto, claro) o melhor filme do ano.Leia mais...
Em sua quarta colaboração com Scorsese, Leonardo DiCaprio (melhor e mais dedicado a cada novo papel) é o protagonista desse filme que narra a história de um agente federal chamado Teddy Daniels, que em 1954 é incumbido de investigar, com a ajuda de um novo parceiro, Chuck Aule (Mark Ruffalo), o misterioso desaparecimento de uma paciente internada/presa num hospital psiquiátrico da ilha que dá título ao filme no original, e que se dedica a tratar de pessoas ditas insanas que cometeram crimes.
Apoiado num elenco talentoso que conta com coadjuvantes da estatura de Ben Kinsgley (o eterno Gandhi do cinema) no papel do Dr. Cawley, diretor da instituição, do veteraníssimo Max von Sydow (o padre Merrin de O Exorcista) no papel de outro psiquiatra e de Jackie Earle Haley (o Rorschack de Watchmen) num papel pequeno, mas não menos fundamental, Scorsese faz um filme que subverte as expectativas do espectador a cada nova sequência pontuada por uma ótima trilha ou por planos que traduzem bem a elegância e o talento do diretor em retratar medos, angústias e as mais distintas sensações/emoções.
Lembrando em muitos aspectos obras como o Sexto Sentido de Shyamalan e até mesmo Identidade (filme de 2003 com John Cusack) pelas viradas inteligentes e engenhosas envolvendo seu protagonista, Ilha do Medo (que nasceu de um livro escrito em 2003 por Dennis Lehane, o mesmo de Sobre Meninos e Lobos) é uma fascinante viagem que expõe os subterfúgios que a mente humana pode criar como válvula de escape de uma realidade que se quer esquecer.
Falar mais é entregar o grande segredo do filme, que a exemplo do citado Sexto Sentido, dá dicas* sutis desde o início para que se mate a charada da história, o que por tabela tende a transformar a produção numa experiência ainda mais interessante de se rever. Mestre na arte que explora, Scorsese faz da Ilha do Medo um filme imperdível de múltiplos gêneros num só.
Cotação: 
*Como citei, ao longo do filme pequenas dicas ajudam a revelar sua grande virada. Abaixo enumero algumas delas e obviamente se você ainda não assistiu, deixe para lê-las depois a fim de não estragar a surpresa reservada.
- No início do filme, Teddy (DiCaprio) pergunta sobre o escritório de Seattle onde Chuck trabalhava. Este no entanto, diz ser de Portland. Quando em outro momento do filme (na cena do penhasco próximo ao farol), Teddy pergunta como Chuck achava que estaria o tempo em Portland, este o corrige dizendo ser de Seattle.
- Assim que chegam à Ilha, o chefe de segurança pede que Teddy e Chuck entreguem suas armas. Nessa cena, fica clara a falta de habilidade de Chuck no manejo do coldre, o que obviamente já indicava que Chuck não era quem dizia ser.
- O “Fuja” do curto recado escrito pela paciente Bridget (a que matou o marido) na cena das entrevistas na cafeteria, podia não significar nada, mas ao ter sido feito num momento em que Chuck se afastara da mesa, deixava no ar mais uma suspeita de que aquele cara escondia algo, como o fim mostra ao revelá-lo como o psiquiatra de Teddy/Andrew Laeddis.
- Na cena em que Teddy e Chuck são obrigados a usar aquelas roupas brancas, dá para ouvir um dos pacientes ao fundo dizendo, “Não sei o que tenho que falar”, o que claro, era mais um sinal de que quase tudo daquilo se tratava de um teatro ensaiado.
- Embora tenha dito que sua esposa Dolores (Michelle Willians) morrera num incêndio, nas várias sequências em que ela aparece está sempre molhada, o que casa com crime que cometeu: o chocante afogamento dos filhos. Fora isso, numa determinada cena, ela aparece com um ferimento no abdomen, que foi justamente o que causou sua morte após ser baleada por Teddy/Andrew.
- Toda situação envolvendo o suposto desaparecimento de Rachel Solondo e seu posterior reaparecimento, soava implausível demais para ser real. Assim, só dava mesmo para interpretá-la como uma grande armação, que claro, mais tarde fica evidente como tendo sido mais um dos artifícios usados pelos doutores Cawley e Sheehan (Chuck) na tentativa de obrigar Teddy/Andrew a encarar a realidade.
Agora para encerrar, vale destacar a dúvida que o fim do filme planta: pouco depois de reconhecer a realidade que poderia lhe trazer a sanidade de volta, Andrew retomar a personalidade de Teddy obrigando os médicos a abandonarem os métodos até então utilizados para recorrer à lobotomia. Mas será que Andrew regrediu mesmo ou apenas fingiu tentando encontrar a fuga definitiva para a realidade que não queria aceitar?
















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